Dia Mundial da Obesidade: A prevenção começa na introdução alimentar

Hoje, 4 de março, assinala-se o Dia Mundial da Obesidade.

Quando falamos de obesidade, falamos muitas vezes de números, estatísticas e custos para o sistema de saúde. Mas antes de tudo isso, falamos de crianças. Falamos de padrões que se constroem cedo. Muito cedo.

A obesidade deixou de ser um problema isolado para se tornar uma das maiores crises de saúde pública da atualidade. E, no caso da obesidade infantil, os dados continuam a exigir atenção.

De acordo com a World Health Organization e os dados da WHO European Childhood Obesity Surveillance Initiative (COSI), em vários países europeus cerca de 1 em cada 3 crianças apresenta excesso de peso.

Perante este cenário, a pergunta é inevitável:

Onde começa verdadeiramente a prevenção?

A introdução alimentar é um momento de programação

A introdução da alimentação complementar não é apenas a transição do leite para os sólidos. É um período de programação metabólica, comportamental e relacional com a comida.

É nesta fase que:
• Se consolida a autorregulação alimentar
• Se moldam preferências de sabor
• Se estabelece a relação emocional com a alimentação
• Se promovem competências motoras orais fundamentais

Pequenas decisões nesta fase podem ter impacto a médio e longo prazo.

Autorregulação: os bebés sabem quanto precisam

Os bebés nascem com a capacidade de reconhecer:
• Quando têm fome
• Quando estão satisfeitos
• Quanto necessitam comer

E esta necessidade varia de dia para dia.

Quando o adulto insiste em “só mais uma colher”, quando distrai para prolongar a refeição ou quando decide a quantidade sem considerar os sinais do bebé, pode estar, mesmo sem intenção, a interferir com um mecanismo biológico sofisticado.

A perda gradual da ligação aos sinais internos de fome e saciedade está associada a maior risco de ingestão excessiva ao longo da vida.

Preservar a autorregulação é um dos pilares da prevenção da obesidade.

A importância da evolução de textura

Independentemente da abordagem escolhida (tradicional ou mais autónoma), a progressão das texturas é essencial.

Recomenda-se que:
• Aos 8–9 meses o bebé esteja exposto a alimentos muito grumosos
• Aos 10 meses consuma alimentos em pedaços, adaptados e próximos da textura familiar

Atrasos na progressão de textura estão associados a:
• Maior seletividade alimentar
• Maior recusa alimentar
• Menor aceitação de vegetais
• Padrões alimentares mais restritivos

E padrões restritivos podem contribuir, a longo prazo, para desequilíbrios nutricionais e maior risco de excesso ponderal.

Textura não é apenas consistência.
É desenvolvimento motor, sensorial e alimentar.

O ambiente alimentar também conta

Outro fator determinante na prevenção da obesidade infantil é o ambiente alimentar precoce.

A exposição frequente a:
• Papas açucaradas
• Snacks ultraprocessados
• Produtos “infantis” com açúcar adicionado

pode moldar preferências gustativas e aumentar a preferência por sabores intensamente doces.

Quanto mais precoce e repetida for essa exposição, maior a probabilidade de a criança desenvolver padrões alimentares menos variados.

A prevenção da obesidade não começa com restrição.
Começa com qualidade alimentar e exposição adequada a alimentos reais.

Prevenir é construir relação

A prevenção da obesidade infantil não se resume a calorias ou a peso.

Começa:
• No respeito pelos sinais de fome e saciedade
• Na progressão adequada de texturas
• Na oferta consistente de alimentos variados
• Na confiança na competência do bebé

Antes de falarmos em dietas, devemos falar em vínculo, responsividade e educação alimentar.

Hoje, no Dia Mundial da Obesidade, a reflexão é esta:

Estamos a ensinar as crianças a comer… ou estamos a ensiná-las a ignorar os seus próprios sinais?

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